O mundo mudou. Temos um vírus que se instalou no Brasil e no mundo. Fez milhares de vítimas. Vítimas de uma doença trazida por pessoas que, na maioria dos casos, não sabiam que estavam infectadas e transmitindo massivamente para outras ao seu redor. Ou foi por pouco caso mesmo…

E a infecção de sistemas por vírus de computador ou malware, como quiser chamar, aumentou consideravelmente e está a todo vapor. Golpes antigos vieram à tona, com uma roupagem diferente, mas se aproveitando de pessoas vulneráveis, sedentas por uma vacina. Uma cura.

Precisamos entender que o mundo como o conhecíamos não existe mais. Ficou no passado. Vivemos um cenário que sempre foi retratado em filmes cyberpunk: muita miséria, fome, pandemia, poluição, o consumismo e o capitalismo chegando a níveis alarmantes e a tecnologia acessível apenas para poucos. Ainda não temos carros voadores e nem os anúncios de neon se proliferando em meio aos prédios das grandes cidades como vimos em Blade Runner.

Uma coisa posso te garantir, que existe de verdade e é retratado em filmes com a temática cyberpunk: os rebeldes. É um povo que não se cala, que utiliza a tecnologia ao seu favor, mas ao mesmo tempo é silencioso. Os Hackers de verdade. Eles não têm pressa. O resultado de suas ações é calculado. Mas essa calma tem um preço alto a ser pago por quem está no seu caminho. Quando o objetivo de fato é atingido, não tem perdão, não tem mais volta, não tem choro. E quando o mal causado por essas pessoas vai para o lado pessoal, o estrago será maior.

Jaguariaíva-Pr, 21 de Setembro de 2020

Léia me fala que um helicóptero está nos aguardando atrás da estação ferroviária da cidade, que hoje deu lugar a um departamento da prefeitura. É.. os órgãos públicos costumam fazer isso com patrimônios históricos e ali se instalam.

Ao chegar no local, constato que o veículo voador realmente está lá. É um modelo Bell 525 Relentless preto, todo estiloso. Um helicóptero pousar na pequena cidade já chamaria atenção, mas um desse porte, imponente, com o trem de pouso retrátil, é de abrilhantar os olhos de qualquer um. O seu interior parece uma mansão, poltronas brancas, um luxo para poucos. A tripulação era composta apenas pelo piloto e copiloto.

Diário de um Hacker #12 | Fonte da imagem: https://verticalmag.com/photo-of-the-week/photo-of-the-week-for-feb-3-2020/bell-525/

Enquanto o helicóptero levanta vôo, fico olhando para algumas pessoas lá embaixo e em poucos segundos vão ficando pequenas. Após poucos minutos, observo a pequena cidade ficando cada vez mais longe. Foram cerca de dois anos escondido, pelo menos eu achava que estava. Foram dois anos tentando levar uma vida normal, longe de toda aquela bagunça que estava em São Paulo, mas o motivo de meu retorno é nobre e faria tudo de novo se fosse preciso. Esse é o preço por se destacar no meio dos computadores. Os gananciosos logo chegam em você e te obrigam a fazer algum serviço pra eles. Às vezes usam de algumas artimanhas, como a que estão fazendo agora, “sequestrando” Marcus e o liberando apenas se eu trabalhar pra organização (criminosa?).

O retorno

Após cerca de 1h 30min estávamos sobrevoando São Paulo. A cidade que nunca dorme. A cidade de pedra, das oportunidades, sejam elas boas ou não. Aterrissamos no heliporto de um prédio da Av. Faria Lima, o coração pulsante das empresas de tecnologia da cidade. No heliporto haviam dois caras de terno preto nos aguardando. Pareciam ter saído do filme Matrix.

Léia olhou para mim, deu aquele sorriso de canto de boca e me deu uma máscara. Ela também colocou a dela. Após estarmos parados em frente ao elevador, esperando ele chegar, o helicóptero começou a levantar vôo. Fico olhando para ele e me desligo um pouco da situação que me trouxe até ali. Entramos em um elevador privativo que foi dar em um estacionamento com carros de pessoas que não tem muita grana: 5 Ferraris, uns 4 BMWs e um furgão preto Peugeot Expert Sport Edition. Um dos caras sinalizou para que entrássemos nele. Os dois foram na frente, eu e Léia sentamos atrás.

– Léia, realmente isso tudo parece ter saído de algum filme de ação, mas o que está acontecendo? – Pergunto baixinho para Léia.

– Ricardo…

Me espanto ao vê-la me chamando pelo meu nome verdadeiro.

– É, eu sei nome real. Mas enfim, eles me acharam, não sei como. E de certa forma sabiam que você ia me ouvir e mais ninguém. Então serei bem clara. Uma das empresas que denunciamos está em maus lençóis e precisam da nossa “ajuda”. Pegaram o Marcus à força e praticamente o torturaram para que dissesse onde você estava. Mas ele não sabia. Foi aí que ele me ligou perguntando de você e contou toda a história. Como eles não queriam mexer um só palito, pediram que eu providenciasse tudo para o seu retorno e que mandasse a conta para eles depois.

– Mas como me encontraram? Como realmente sabia onde eu estava?

– Ricardo, Ricardo. Não esconda o jogo. No grupo que temos no Signal você nos enviava fotos de paisagens, mas não nos contava onde estava e nem escrevia qualquer mensagem. Já ouviu falar de um negócio chamado metadados?

– Claro que ouvi hehe

– Então meu querido, as fotos de paisagens que você nos mandava possuíam metadados contendo as coordenadas do local onde foram tiradas. Ela sempre apontavam para a mesma cidade.

– Como deixei essa passar?

– Fique tranquilo, “eles” não sabem onde você mora. Lembra que cuidei de toda a burocracia pra sua volta?

– Valeu Léia.

– Não me agradeça. Apenas faça logo o que eles estão querendo.

– E o que eles querem que eu faça?

– Realmente não sei Ricardo, mas você vai descobrir logo, logo.

– Léia, está trabalhando pra essa gente agora? Justamente pra essas empresas que temos tanto lutado contra anos atrás?

– Ricardo, deixe a ideologia um pouco de lado. Às vezes é preciso se unir ao inimigo, fazer parte do jogo. É preciso ser um cavalo de tróia para que o estrago nas terra inimigas seja maior.

– Isso é verdade. – Concordo com Léia. – A morte do Cereal Killer (veja a edição #09) e o que fizeram com Marcus, não vai passar impune.

– Pelo menos Marcus está vivo né… – Léia fala sem completar a frase.

Percebo que o furgão começa a entrar numa rua de terra acidentada, com vários buracos, tamanha a intensidade do chacoalhar do veículo… Olho pela janela e percebo que estamos em uma região industrial de São Paulo, povoada por velhas instalações. O furgão diminui a velocidade, até parar em frente a um grande portão de ferro. O agente que está dirigindo põe o rosto para fora da janela, de forma que fique visível para uma velha câmera de CFTV que está pendurada no canto superior esquerdo do velho portão de ferro. Após alguns segundos ele se abre. Parece que o local está totalmente abandonado. Vários galpões abandonados e um com uma aparência um pouco mais “moderna”.

O furgão para em frente.

– Vocês dois precisam descer aqui. Fim da linha. – Fala o motorista, nos encarando pelo retrovisor.

Após descermos, começamos a caminhar na direção apontada pelo agente. Logo em seguida avistamos alguns carros estacionados em frente a uma instalação. Já estava começando a escurecer.

Parecia um imenso túnel, com algumas luzes tímidas da claridade entrando pela vidraça amarelada pelo tempo.

No final desse túnel comecei a avistar alguns vultos de pessoas e algumas luzes que pareciam ser emitidas por telas de computadores. Consigo ver Marcus de costas para mim, sentado em uma cadeira e digitando algo em um teclado. Ao lado dele, também de costas, um cara de sobretudo preto e cabelo rastafári olhava para a tela sob os ombros de Marcus.

– Sejam bem-vindos! – Diz o cara sem se virar para nós dois.

– O que você quer que eu faça? – Pergunto.

– Apenas que me escute.

Ele se vira e finalmente vejo seu rosto.

– Cereal?? – Pergunto.

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O Analista
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