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Ficção

Projeto Cryoshell, uma história em um futuro cyberpunk – Parte 2

Acaber de fazer uma descoberta que poderá mudar o rumo da minha vida.

Por que fizeram isso comigo? Os responsáveis vão pagar pelo que fizeram.

Vou descobrir tudo.

E eu não tenho 103 anos.

Parabéns para mim, hoje é meu aniversário.

WTF!

15/10/2085 – 10:00 pm, segunda-feira.

Meu olhar continua fixo no espelho, localizado logo acima da pia branca. Encaro aquele ser que acabou de fazer uma descoberta. Fecho os olhos por alguns segundos, na tentativa de que o que acabei de ver fosse apenas coisa da minha cabeça, uma peça que a realidade está querendo pregar em mim. Mas ao abrir lentamente os olhos e olhar para a minha careca refletida no espelho, constato que o código 2F1B10 ainda está lá.

Quem sou eu?

Após alguns momentos olhando para meu reflexo, chego a conclusão de que sou uma mera experiência que achou ter vivido uma vida, mas que na verdade ficou na criogenia durante anos, recebendo “estímulos” no cérebro, como sendo “realidades” a serem assimiladas pela minha mente enquanto dormia.

Sou um simples corpo que a Policom utilizou para suas experiências…

A minha saída da câmara de criogenia foi em 01/05/2085. Passei cinco meses acordado. Cinco meses achando que tinham-se passado anos. E os sonhos constantes que venho tendo? São memórias implantadas ou fazem parte de algo que realmente vivi no passado?

Preciso redescobrir minha vida. Saber o que realmente aconteceu. Sinto que tive uma mãe, um pai ou uma namorada que deixei lá em 2018.

É estranho, mas após esta descoberta, sinto como se realmente tivessem passado somente alguns meses desde 2018 até hoje. Mas não, passaram cerca de 70 anos! E hoje quando olho pela janela do meu apartamento, vejo carros voadores e outros veículos estranhos, mas que fazem parte deste tempo e eu tenho que me acostumar com isso.

De certa forma, estou em uma época que sempre sonhei viver. A vida realmente imitou a arte. Luzes de neon, imagens em telões grudados nos prédios, realidade aumentada gerando imagens que podem ser vistas a olho nu, e aquela distopia das pessoas caminhando apertadamente nas ruas de Nova São Paulo com a de carros voadores que podem ser vistos próximos do topo dos prédios.

Seguindo em frente

16/10/2085 – 06:00 am, terça-feira

Ao abrir os olhos após ter ouvido o som da marcha imperial de meu celular, que estava gritando para me acordar, percebo que ainda estou sentado no chão do banheiro. Acho que o baque foi demais ao fazer aquela descoberta, que acabei apagando ali mesmo… Levanto lentamente, me apoiando como posso na pia, jogo uma água no rosto e me dirijo até o quarto, para poder me trocar.

Visto minha camiseta cinza com os dizeres em amarelo: “Hack the Planet”, a minha inseparável jaqueta preta de couro, uma calça jeans desbotada e com alguns furos, um gorro preto (pois deve estar frio lá fora e estou sem um fio de cabelo na cabeça) e para completar, um coturno preto que está fazendo aniversário. Meses atrás pedi para um conhecido que trabalha na 25 de Março (sim, ela ainda existe em 2085!) confeccionar algumas roupas para mim, pois não estava mais aguentando aquele macacão cinza que todos estavam usando. Pelo que me disse, ele herdou de seus antepassados a capacidade de criar peças de roupas. Para as pessoas de 2085, esta moda é muito retrô, mas para mim, é uma ligação com um tempo que não volta mais. Mas de qualquer forma, não ligo para os olhares desconfiados.

Ao sair do prédio, fecho os olhos e tento sentir um pouco do ar puro que ainda existe, numa tentativa de relembrar como o ar de 2018 era mais respirável e também de me conectar com aquele tempo. Não é a toa que em 2085, o número de casos de câncer no pulmão está na casa dos 5 num grupo de 10 pessoas, na cidade de Nova São Paulo. Mas como você deve ter percebido, fui agraciado com um pulmão limpo, devido o tempo que passei na criogenia, sem contato direto com o ar sujo que impera aqui e nos grandes centros urbanos.

De repente, uma infinidade de cheiros invade meu olfato. Dentre eles, consigo distinguir o aroma de café e de pão sendo frito em alguma chapa grande. Vejo que uma feira de rua está ocorrendo ali perto. Ainda está escuro às 6 e pouco da manhã, mas o local está cheio de pessoas. Uma mulher chinesa com o sorriso estampado no rosto, faz sinal para que eu me aproxime dela, em meio a uma fumaça de algo sendo num caldeirão cheio de óleo, de uma barraca ao seu lado. A senhora Akemi me conhece e sabe do que eu gosto.

Sou recebido com uma xícara branca com café e um pão frito na chapa, enrolado em um guardanapo. Sento em uma banqueta e devoro vagarosamente meu café da manhã.

********

Sinto meu smartphone vibrar. É uma chamada em vídeo de Raphael.

— Rickard, tá tudo bem? — Raphael está com cara de quem não dormiu a noite toda. O mano deve estar preocupado comigo.

— Fala Raphael, que que manda?

— Rickard, você não respondeu minhas ligações desde ontem a noite! Descobriu alguma coisa?

— Cara, apaguei. E descobri algo sim. Algo realmente importante.

— Que coincidência, também descobri! kkk

— Como assim?

— Por aqui não é seguro falarmos sobre isso. Tá lembrado do galpão?

— Como eu poderia esquecer?

Galpão é um código para um night club localizado no underground da cidade. Para os ricos de Nova São Paulo, esta região é o lado esquecido da cidade. Mas é lá onde a coisa acontece. Você já vai entender.

O que a galera rica não sabe e nem desconfia, é que muitas pessoas que moram lá, trabalham infiltradas na Policorp e em várias empresas que detêm o poder sobre o país, consequentemente sobre a massa. Raphael havia me contado isso, mas nunca confirmei a veracidade da informação.

— Raphael, vamos nos encontrar lá às 20h. Leve seu laptop, precisaremos dele. Vou te explicar tudo.

— Combinado! Estou ansioso para te contar algumas coisas…

********

O dia no trabalho passa normalmente. Não fiz nada mais do que meu trabalho cotidiano, que é encontrar falhas em sistemas e reportar aos clientes da Policom. Trabalho este, que inclusive, faço de olhos fechados. Uma vulnerabilidade aqui, um zero-day descoberto ali, etc.

Eu e Raphael trocamos olhares, e percebo que ele não para de se mexer na cadeira. O cara está ansioso mesmo. Mas ao mesmo tempo, percebo que também estou assim. O que será que o mano tem pra me contar?

O night club

A noite cai em Nova São Paulo. É em meio as luzes de neon, prédios antigos e em becos escuros, onde a coisa acontece. Em alguns momentos ouve-se o som de hovercars (carros voadores) aterrissando nas redondezas, trazendo algum riquinho para conhecer a diversão noturna da cidade. Baladas, bares, locais apinhados de pessoas de todos os tipos. Punks (é… os caras voltaram com tudo), gays, lésbicas simpatizantes, conversam animados sobre os mais variados assuntos. Além disso, algumas prostitutas perambulam pelas ruas na espera de algum cliente as chamar. Obviamente, devo lembrar a você que em muitos dos bares e baladas de Nova São Paulo, existem uns “espaços para diversão”, se é que me entende.

********

De dentro do hovercar taxi (sem motorista), observo pelo vidro embasado, decorrente da chuva que está caindo e da minha respiração, uma movimentação próxima ao night club. Como o local do pouso estava pré-programado pelo app que eu estava utilizando, o hovercar pousa numa rua das imediações. A porta do meu lado, no estilo asa de gaivota, se abre automaticamente. Antes de sair, pressiono o dedo indicador em um painel, para realizar o pagamento da corrida.

Aquela cacofonia de uma noite como qualquer outra, invade meus ouvidos, enquanto caminho até o night club. Faço um sinal de afirmativo com a cabeça para o segurança, que devolve com o mesmo movimento. Na entrada, ainda no lado de fora, ouço um som abafado vindo de lá de dentro. Um corredor, escuro, com luz negra de neon, ilumina as roupas claras de alguns frequentadores que estão encostados na parede, seja fumando um cigarro (ou outro tipo), se beijando, ou etc, etc, etc. Algumas me encaram, mas fazem de conta que não estou ali. Ocorreu comigo a mesma cena do primeiro filme do Blade (Caçador de Vampiros), quando a vampira atrai a vítima para uma balada vampiresca em um local escondido :

O som abafado de um rock clássico (alguém conhece a banda Inocentes????) começa a tomar forma, conforme me aproximo aos poucos, quando paro em frente a uma outra porta grande de aço. Sem qualquer expressão facial, dois seguranças no estilo MMA (uma luta de contato muito famosa em 2018), um de cada lado da porta, abrem-na lentamente para mim. De repente, aquele som abafado dá lugar a uma nova explosão de sons, com riffs de guitarra sobre uma bateria acelerada, um vocal rasgado e o grito animado da galera quando o refrão chega em seu ápice:

Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP

O jornal, a rádio, a televisão

Todos os meios de comunicação

Neles estavam estampados

O rosto de medo da população

Ooooooo, Ooooooo, Ooooooo

Todos ali na pista estavam pulando loucamente com os braços para cima entoando a letra cantada pelo vocalista da banda. Fico ali curtindo aquele som, balançando a cabeça e batendo os pés.

— Falaaaa Rickard!!! — Alguém berra no meu ouvido, e de sobressalto, viro para ver quem é o autor da façanha.

— Raphael, seu fdp. Cê tá doido manoooo???

— Desculpa cara, é que achei muito hilário você balançando a cabeça, igual a um tiozinho de 40 anos numa balada de gente jovem… kkkkkkkk

— Não se esqueça que você também está quase na casa dos 40 heinn???

— Verdade!

— Raphael, precisamos trocar umas ideias sobre o que descobri!

— Vamos ali em cima, naqueles sofás! — Aponto o dedo indicador para um lounge na parte superior da pista, um local que proporcionava uma ampla visão de todo o club.

Ao som da banda que estava animando a todos ali, subimos as escadas em direção a um pequeno lounge. Algumas mulheres e homens que passavam por ali, faziam insinuações para mim, provavelmente querendo oferecer algum tipo de prazer.

— Fica para outro dia — Pensei.

Sentei num sofá de couro preto, mas que pareceu me abraçar por inteiro. Estiquei as pernas e descansei os pés sobre uma mesa de vidro que ali estava. Enquanto isso, Raphael ligava seu notebook para me mostrar algo.

— Rickard, provavelmente você já deve saber sobre o projeto CRYOSHELL e quem são as duas pessoas que foram testadas nele. — Enquanto falava, Raphael navegava por alguns arquivos, inclusive por aquele onde descobri sobre nós (estava no cache do servidor o arquivo descriptografado). — Realmente foi um baque quando soube que nossa vida atual é praticamente uma mentira. Ah, e não se preocupe, fiz uma busca por todos os servidores que utilizou e apaguei o cache deles. Assim, não correremos o risco de alguém saber que nós descobrimos “algo”.

— Cara, realmente nem pensei em apagar os rastros, a cabeça estava em outra vibe, pois havia descoberto algo importante né?? — Respondo.

— Olha Rickard, eu te entendo. Sei que a descoberta foi recente, mas… — Suas palavras são interrompidas por um grito em uníssono vindo da pista. O som da banda parou para dar lugar a entrada de um conhecido Dj da casa. Ele começou seu set com uma conhecida música eletrônica dos anos 90.

“Hey girls

Hey boys

Superstar DJ’s

Here we go”

Corpos se mexem e se entrelaçam ao som daquela música diferente, uma batida que faz todos na pista dançarem loucamente. Sinto um dejavu neste momento, era como já tivesse ouvido-a antes. Sons de um tempo distante que às vezes permeiam meus sonhos e pesadelos, que se infiltram nos meandros de meu subconsciente.

Deixo minha mente me levar… de repente sinto como se minha mente deixasse meu corpo.

A sensação é estranha quando ocorre pela primeira vez. Luzes e explosões psicodélicas aparecerem na minha mente, em um fluxo de informações que têm como destino o desconhecido. A visão que tenho é a de um túnel sinuoso, com suas paredes compostas por caracteres especiais na forma de um chiado, similar ao que ocorre em TVs antigas. Esta visão dá lugar para palavras na cor verde sob um fundo preto. Sinto que meus batimentos estão mais acelerados. Onde estou? O fim do túnel se aproxima. Alguém parece chamar pelo meu nome. Ignoro. Meus últimos sentimentos incluem sensações de euforia e tristeza, ao mesmo tempo em que a velocidade aumenta cada vez mais. Olho para as paredes e percebo que tudo está borrado. A velocidade de minha respiração aumenta. Firmo minhas mãos em algo e tento prender os pés no chão. De repente, um clarão branco aparece num piscar de olhos e uma imagem a La Matrix com caracteres verdes caindo lentamente surge em seguida, para em outro instante, eu abrir os olhos e dar de cara com Raphael me encarando.

To be continued…

Confira a parte 1 desta história.

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