Não há como negar, mas a NSA não é uma empresa 100% perfeita (que tenha “bons modos”). Durante anos ela usou o incentivo de despesas pagas para atrair jovens talentosos para um emprego na agência. Ma com os recentes vazamentos feitos por Snowden, os alunos estão se organizando contra o que eles vêem mais do que apenas uma invasão aos seus direitos de privacidade.

Em 2012, Alec Foster era um jovem que não tinha tinha experiência em serviços públicos, mas um amor pela diplomacia digital e o desejo de encontrar uma saída para essa paixão. “Eu queria defender o que eu amo sobre a Internet, e pensei que trabalhar em segurança cibernética nacional seria a melhor maneira de fazer isso”, disse Foster. Foi nessa época que ficou sabendo sobre a bolsa de estudos Aspire. Um programa que coloca 29% dos seus diplomados na NSA. E ele conseguiu entrar lá.

Já em 2013, um ano no programa, diversas histórias vazaram através de Snowden, que revelou o grande poder invasivo de espionagem da NSA. Uma das histórias publicadas na NSA, obrigava a Verizon a entregar informações sobre todas as chamadas telefônicas nacionais. Outro vazamento interessante foi o do programa Prism da NSA, que indiscriminadamente coleta dados de grandes empresas de tecnologia dos EUA, e utiliza dados de vigilância para determinar alvos para ataques aéreos no exterior.

Um ambiente de aprendizagem saudável depende da capacidade das idéias e informações fluírem livremente, mas a conversa no local de trabalho não ocorre quando os estudantes estão sob vigilância onipresente.

Foster

Logo após a notícia do vazamento das informações feito por Snowden, Foster foi uma das poucas pessoas (24 de 1795, de acordo com estimativas em 2013) a abandonar o programa e devolver o dinheiro da bolsa. Foster disse que sem o apoio de sua família e outras perspectivas de emprego, ele não teria nenhuma escolha a não ser ficar parado.

Desde o final dos anos 90, a NSA tem feito programas de recrutamento em universidades de todo o país, com rejeição mínima de alunos e administradores. Este sucesso é incomparável, e é devido principalmente ao fluxo confiável de alunos que vão das universidades para a agência. Ao contrário do Departamento de Defesa, a NSA não tem praticamente nenhuma vaga em aberto, que chega a cerca de 1% das suas posições. Isso ocorre porque a agência trabalha da seguinte maneira quando recruta estudantes: ela tem 1.500 funcionários envolvidos, pelo menos em tempo parcial, no processo de seleção. A maioria desses esforços de recrutamento ocorrem nos campi universitários, onde 80% das contratações da NSA são para cargos de nível básico.Mas estudantes de dezenas de universidades estão se juntando para iniciar uma discussão sobre as práticas de recrutamento da NSA. Estes programas de recrutamento agora são vistos por alguns de forma duvidosa, dadas as recentes revelações sobre a NSA, incluindo não somente a sua capacidade impressionante de espionar os estudantes.

Há duas principais maneiras de se recrutar nos campi: através dos Centros designados de Exceleência Acadêmica (CEA) e os CyberCorps, que são bolsas para o serviço.

Universidades à partir das quais os estudantes são recrutados, são selecionadas com base em seu foco nas áreas técnicas, como ciência da computação, engenharia elétrica e engenharia da computação. Cerca de 100 universidades de 39 estados possuem o selo CAE de aprovação. Tais designações podem trazer boas recompensas para a universidade. À cada uma é atribuída uma especialização no assunto, sendo o elo entre a universidade e a NSA, mantendo-os assim informados sobre as últimas pesquisas de cibersegurança e outras oportunidades.

Outro benefício interessante é que a escola que tiver a sorte de ser escolhida receberá financiamento do governo federal.As escolas CAE, de acordo com o representante da NSA, Megan E. Roger, “não recebem nenhum dinheiro da NSA, mas podem ser elegíveis à receberem subsídios de outras organizações, como a National Sciense Foundation (NSF, ou Fundação Nacional da Ciência)”. Um desses subsídios da NSF é o programa Scholarship for Service (SFS, ou Bolsa de Estudos para Serviço), para CyberCorps.

Angus Johnston, professor de história da Universidade de Nova York, tem duas preocupações básicas com o processo: “Uma delas são as universidades trabalharem ativamente com orgãos de defesa, militares e com a CIA. Há uma longa história de protesto estudantil contra esse tipo de relação. E segundo, há a questão do recrutamento nos campi, que tem sido um problema durante muito tempo.”

No caso da NYU (New York University), não é somente os estudantes que são incentivados a se increverem no SFS, mas também todo o corpo docente em geral, que não tem idéia do que realmente está acontecendo em todo esse processo feito pela NSA.

A página inicial do site da Universidade do Estado do Arizona (ASU), exibe orgulhosamente o selo CAE, entre os do departamento de segurança interna e do conselho de regentes do Arizona.

No ano passado, membros da ASU, Alunos para a Liberdade, Jovens Americanos para Liberdade, o Partido Verde, e universitários republicanos – organizações administradas por estudantes – lançaram uma campanha para acabar com o relacionamento de sua universidade com a NSA.

Essa campanha incluiu a publicação de uma carta formal, aprovada pelas organizações citadas acima. “Enquanto o relacionamento da ASU com a NSA fornece um certo nível de prestígio e traz um valioso financiamento”, escrevem os alunos, “nós não acreditaremos que devemos trocar nossa liberdade civil por vantagens institucionais.”

Essa causa dos estudantes foi defendida por um senado estadual republicano, Kelli Ward, que criou um projeto de lei que proibia a NSA de recrutar alunos na Universidade do Estado do Arizona.

Mas a resistência não termina aqui. Em julho de 2013, dois recrutadores visitaram o campus da Universidade de Wisconsin para “vender” aos alunos o estilo de vida NSA. Durante a apresentação, Madiha Tahir, estudante de PhD da Universidade de Columbia, que na época foi matriculado em um programa de idiomas em Wisconsin, começou a fazer certas perguntas sobre algumas políticas da NSA e escolheu algumas perguntas no estilo “Orwell” que os recrutadores acharam difícil de responder. A linha de questionamento de Tahir inspirou outros estudantes a chamar publicamente os recrutadores em sua fácil manipulação da verdade. O áudio do incidentes foi registrado, publicado on-line e amplamente compartilhado.

Na universidade do Estado do Novo México, em dezembro de 2013, um estudante chamado Alan Dicker foi para sua faculdade protestar contra a presença de um recrutador da NSA no evento. Dicker parou ao lado do mesa do funcionário da NSA, segurando um aviso onde dizia: “Trabalho para o Grande Irmão, aplicar hoje”. A polícia universitária tentou forçar fisicamente Dicker a sair para fora do evento antes de prendê-lo.

Então em dezembro de 2014, um grupo de cerca de 50 manifestantes invadiram o auditório Wheeler da Universidade de Berkeley, Califórnia, onde um magnata intelectual, Peter Thiel, estava palestrando. Thiel é um dos sócios da Palantir Technologies, uma empresa que possui um software que analisa dados privados, cujos clientes incluem NSA, onde ele expressou publicamente preocupação com muitas das recentes revelações sobre a agência. Durante a sua apresentação, os manifestantes correram para o palco em meio a gritos como: “Sem um estado polícia, sem NSA!”. Ele foi rapidamente levado aos seus assessores.

Em um post publicado em fevereiro pela revista Point Magazine, intitulado “O que é a privacidade?”, o filósofo Michael P Lynch sugeriu que “a informação de privacidade (dos cidadãos) não é uma porta fechada, pelo contrário, ela tem a capacidade de virar a chave”.

Estudantes contra a vigilância

Em 2013, depois que deixou o programa da NYU, Foster fundou a Student Net Alliance (SNA), uma organização internacional (administrada por estudantes), trabalha com muitas das facetas dos direitos digitais nos campi universitários. Até agora a SNA ajudou cerca de 17 universidades, incluindo a NYU, escrevendo cartas à administração da universidades, falando de reformas em matéria de direitos dos estudantes com relação à privacidade, e em alguns casos, sobre o recrutamento da NSA. As cartas fazem parte de um projeto chamado Students Against Surveillance (Estudantes contra a vigilância), e são escritas por um misto de estudantes e professores, incluindo um estudante do ensino médio.

Os membros do SNA também têm trabalhado no primeiro Student Internet Policy Handbook (Manual da Política de Internet do Aluno) desde junho de 2014. A primeira seção do manual, que trata do recrutamento nos campus pela NSA, já está disponível. O resto será publicado posteriormente. O manual avalia cada universidade em cerca de doze critérios, incluindo a política de cyberbullying, transparência, se a universidade aplicou o recrutamento da NSA ao seu campus, dentre outros. É o fruto de dezenas de entrevistas realizadas pelos oito membros do SNA.

O principal impulso para o sistema de classificação, de acordo com Foster, é a sensibilização dos alunos. “É fácil confundir esses programas com ferramentas de recrutamento inofensivos”, diz Foster, “mas estas universidades estão recebendo milhões de dólares dos contribuintes todo ano para incentivar os alunos.”Foster espera que esses esforços aumentem a consciência sobre é movida a NSA, em primeiro lugar, através do recrutamento em instituições acadêmicas. Ele espera o interesse nacional, talvez até mesmo ajude a garantir a parte do Patriot Act, que é uma lei que foi ratificada pelo governo do presidente George W. Bush e têm sido a melhor amiga da NSA desde então, que ajudou a justificar sua imensa coleta de informações e espionagem em cada cidadão americano.

“Quando um governo tem um poder, sendo ele útil ou não, torna-se forte”, diz Foster. “É muito mais difícil tirar o poder do governo do que simplesmente não lhe dar esse poder, quando o mesmo ainda não o tem.”

Fonte: The Guardian

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