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#Introdução_

Há um certo tempo (quando tive contato pela primeira vez com uma e-zine chamada Barata Elétrica) li o conhecido Manifesto Hacker (1986), escrito por um hacker com o pseudônimo de “The Mentor”. Segue um trecho:

Este é nosso mundo agora … o mundo do elétron e do switch, a beleza do baud. Nós fazemos uso de um serviço já existente sem pagar por aquilo que poderia ser baratíssimo se não fosse usado por gulosos aproveitadores, e vocês nos chamam de criminosos. Nós exploramos … e vocês nos chamam de criminosos. Nós buscamos por conhecimento … e vocês nos chamam de criminosos. Nós existimos sem cor, sem nacionalidade, sem preconceito religioso … e vocês nos chamam de criminosos. Você constrói bombas atômicas, vocês fazem guerras, você assassina, engana, e mentem para nós e tentam nos fazer acreditar que é para nosso próprio bem, contudo nós somos os criminosos.

Sim, eu sou um criminoso. Meu crime é a curiosidade. Meu crime é julgar as pessoas pelo que elas dizem e pensam, não como eles se parecem. Meu crime é ser mais inteligente que você, algo que você nunca vai me perdoar.

Eu sou um hacker, e este é meu manifesto. Você pode parar este indivíduo, mas você não pode parar todos nós … afinal, somos todos iguais.

Digamos que nada mudou desde essa época. A tecnologia pode ter mudado, como conexões em alta velocidade, computadores potentes cada vez menores, a facilidade com que temos acesso à informação, e outras coisas mais. Mas o ser humano continua o mesmo de sempre, com uma ganância e arrogância sempre crescente, que costuma aparecer sob diversas formas.

A tecnologia propriamente dita foi construída por Hackers de verdade. O sistema operacional que você está utilizando provavelmente foi desenvolvido no passado por algum Hacker em sua garagem de casa, bem como outras tecnologias que facilitam nosso dia a dia, interconectando sistemas e redes.

Agora os homens do colarinho branco querem controlar a tecnologia que lutamos para construir, tecnologia esta que sempre teve um único propósito: facilitar o compartilhamento de informações, unir as pessoas.

A Internet é um bom exemplo disso. No início, ela foi criada com o simples propósito de compartilhar informações. Com a Internet chegando nas universidades, o senso de compartilhamento de informações teve o seu boom. Todos queriam ajudar, dar a sua parcela de contribuição para a comunidade.

E a criptografia veio para nos dar anonimato, proteger nossas comunicações, e a nós também. Há muito tempo o governo e empresas privadas querem saber o que estamos fazendo, “chutar a porta de nossas casas” utilizando-se do pretexto de que estão nos protegendo ao procurar o “ladrão”. O governo faz um grande trabalho do tipo “broadcast”, indo de usuário em usuário até encontrar quem está procurando. Assim como você, não gosto nem um pouco que vejam nossas conversas (tanto pelo celular como por um laptop), e-mails, programas instalados, sites acessados, etc. Já vi em um lugar e afirmo aqui: o governo quer poder. George Orwell estava certo…

Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam”. George Orwell

Recentemente ocorreu de algumas operadoras de telefonia terem a brilhante ideia de colocar franquia em nossa Internet, onde ao exceder a franquia, a sua conexão “pararia” de funcionar e o serviço seria restabelecido mediante a contratação de um plano maior…

A anarquia ostenta duas faces. A de Destruidores e a de Criadores. Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores.” V de Vingança.

Sempre existiu e existirão pessoas que querem ganhar em cima do coitado do brasileiro, que levanta todos os dias para chegar ao seu trabalho, enfrentando sol e chuva, congestionamento, e é obrigado a ver o seu dinheiro indo ralo abaixo. We have the power porra! As coisas não podem continuar deste modo. Mas para chegar a um resultado nem sempre o caminho mais plausível é o melhor a ser seguido. É necessário remexer as estruturas.

Temos a missão de dizer a verdade, relevar os atos ilícitos que o governo e empresas privadas estão cometendo, pois se estão fazendo o que fazem é porque de alguma forma os colocamos lá. “Devemos tirar as máscaras dos homens (e também mulheres, porque não?) de colarinho branco, revelando sua face”. Algumas empresas privadas também tem a sua grande parcela na bolada, pois se beneficiam dos “recursos” que o governo “empresta” de nós cidadãos. Mas existe um coisa ruim nisso tudo, pessoas não gostarão de saber a verdade, pois como disse Morpheus, “as pessoas estão muito acostumadas com o sistema, apegadas de certa forma, que lutarão para protegê-lo”. Quer entrar nessa comigo?

Eu sou Case, e não deixarei barato.

#Mensagem_
(Leia a edição #07)

Case ainda está na lanchonete olhando atentamente a tela de seu notebook, na espera ansiosa de que D0ctor tenha algo de interessante para lhe dizer (e realmente tinha…).

– Case, tenho algumas coisas importantes para te passar. – Fala D0ctor.

– Diga.

– Você não vai gostar do que tenho para te falar.

– Fala cacete!

– Não encontrei nada de relevante sobre o governo. Acessei alguns documentos/planilhas disponíveis na web, mas nada de relevante que pudesse dar alguma pista sobre o que o governo ou seus aliados estivessem tramando. Parece que estão fazendo tudo na surdina.

– Mas o que realmente queria te dizer é que… você não está seguro no Club.

– Como é que é? – Pergunta Case em voz alta, apesar de ter tido esta revelação ao ler os caracteres que apareceram em sua tela. Olha em volta com a mesma paranoia de sempre. O que só vê são pessoas simples fazendo coisas simples em um local simples.

D0ctor continua seu relato.

– Quando Cereal entrou em contato comigo pedindo que eu ajudasse vocês em meio a essa confusão, disse que era para eu me ater a coisas relacionadas ao governo, que do resto ele cuidaria de tudo. Achei estranho ele me falar isso, colocar algum limite sobre o que eu poderia fazer. Realmente não gosto que coloquem limite nas minhas ações de hacking, além do que, te conheço muito bem, sei do seu lado anarquista, mas que também preza pelo bem de todos. Achei que gostaria de saber o que tenho para te mostrar, resolvi ir além, pois acima de tudo somos Anonymous. Não vou falar muito, veja com seus próprios olhos.

#Revelações_

Case recebe um arquivo compactado com o nome de file.tar.gz. Abre o terminal, e “navega” até o local onde salvou o arquivo. Digita o seguinte comando para descompactá-lo.

Um diretório de nome file é criado. Em seguida Case abre o gerenciador de arquivos Nemo, em seguida clica duas vezes sobre o diretório recém-criado. Observa que existem alguns arquivos no formato PNG e outros em PDF. Clica duas vezes sobre um arquivo PNG, e pasmo, vê a pessoa que ele menos imaginaria, posando em uma alegre selfie ao lado do político Zezinho em um nobre restaurante de São Paulo.

WTF? – Pensa Case. Realmente existe gosto pra tudo nessa vida, mas não estamos aqui para julgar a preferências de ambos. Mas ver Cereal junto de um dos piores (se que é existe algum bom) políticos do país, uma pessoa que é alvo de umas das maiores investigações já feitas no Brasil, e muito possivelmente responsável pela perseguição ocorrida no shopping, acabou por despertar um sentimento em Case. Um sentimento de medo.

O quanto a operação “Queda do Sistema” está comprometida? E o mais importante: o que acontecerá com todos do grupo?

Cereal, o que você está querendo hein? – Pensa Case.

Ainda tem mais…

Case abre um arquivo PDF, e agora sim fica espantado. Logs de conversas suas com outras pessoas através do aplicativo Telegram (versão para Linux), conversas de Case com seu amigo Marcus, onde falavam o que achavam da operação “Queda do Sistema”, dentre outras coisas mais…

– Case, estamos juntos nessa, pois se reparar bem, existem trechos de conversas entre você e eu nesses arquivos. Não preciso nem te falar como Cereal conseguiu isso né? Aquele fdp gravou tudo que trafegou pelo roteador sem fio do club. Como boa parte das conversas são criptografadas, o Cereal precisou cobrar algum favor daqueles lamers do datacenter de cloud para usar um cluster parrudo de servidores e quebrar a criptografia do que coletou. Agora… porque ele fez isso? Ganância, poder, dinheiro…

– Não concordamos na forma como ele conseguiu esses “recursos”. Um dia ele terá o seu troco, mas isso não é importante agora, pois temos que nos preocupar em sumir do mapa, sermos mais cuidadosos, e ao mesmo tempo, descobrir muito mais coisas sobre essa porra toda. Você D0ctor, tome mais cuidado. O Cereal tentou te usar para colher maduro, a fim de obter mais informações e saber o que estávamos fazendo, pois acredito, que ele não conseguiu descriptografar tudo que encontrou. Então meu amigo, saiba que a criptografia continua sendo nossa grande aliada, pois com ela ainda podemos nos proteger de pessoas como Cereal e Zezinho. – Alerta Case.

– Obrigado por ter entrado em contato comigo D0ctor. Acho melhor descartarmos o chip de nossos smartphones e formatarmos todos os nossos laptops (notebook). Existe uma distribuição Linux chamada Tail, do tipo LiveCD, com foco no anonimato. O Tail não grava nada no HD, e sim na memória RAM. Sabemos que esta memória é volátil, então quando iniciarmos o sistema novamente não haverá nada na RAM.

– Farei isso sim Case., manteremos contato. Valeu.

Após terminar a conversa com D0ctor, Case se encosta na cadeira estofada, olhando pensativo para o teto descascado da lanchonete onde está um ventilador sem funcionar.

Léia, a garçonete, chega sorridente trazendo o pedido de Case. Um capuccino médio e um pão esquentado na chapa com ovo e requeijão (pedido típico de quem mora em São Paulo…).

– Aqui está seu pedido Case…. mais alguma coisa?

– Acho que é só isso Leia, obrigado!

– Precisando é chamar!

#Voltando às origens_

Antes levar o pedido para Case, Léia ficou observando o jovem misterioso digitando freneticamente no teclado de seu laptop, ligado em um mundo onde só ele parecia entender… parecia.

Para alguns pode ser estranho, mas Léia sempre gostou de computadores. Foi paixão à primeira vista quando ganhou seu PC 486 DX2 66 Mhz, 16 MB de RAM e HD de 540 MB em meados dos anos 90.

Naquela época a Internet estava sendo liberada no Brasil, então Léia tratou de juntar sua mesada para comprar um modem externo da USRobotics de 14.400 Kbps. Assim como a maioria das pessoas, Léia ficou fascinada com um misterioso mundo que se abria. Muitos gostavam de acessar sites de notícias, curiosidades, etc. Mas Léia gostava de entender como toda aquela coisa funcionava e também de poder enganar o sistema, tirar vantagem dele.

Logo no início, Léia encontrou informações num grupo de IRC que ensinava como fazer overclock no modelo de modem que utilizava, pois era um dos mais populares na época. No IRC também encontrou (e você encontrar hoje) diversas informações do lado underground da tecnologia, como por exemplo, aprender como efetuar ligações de graças em telefônico público, conectar laptop numa caixa de verificação da empresa de telefonia e se conectar de graça à Internet, dentre outras coisas.

Ver aquele misterioso garoto digitando freneticamente em seu laptop e o modo como agia, despertou algo em Léia, um sentimento que estivera há muito tempo em repouso…

Muitos dos Hackers de verdade não são vistos com bons olhos pela sociedade, principalmente pelas empresas que não querem contratar alguém com “conhecimentos e comportamentos diferentes”, com receio de que suas informações estivessem em perigo, ou também pelo fato de que essas pessoas – pela menos uma parcela delas – veem pessoas normais como um rebanho que anseia por um pastor, que não fazem nada sozinhas e aceitam sem pensar tudo o que o mercado cospe para elas. Nenhuma empresa quer uma pessoa assim, que fale a verdade e aponte os erros.

Quando chegou em São Paulo, Léia foi recusada em todos os processos seletivos que participou, pois em seu currículo não existia nenhuma experiência profissional. Além de nome e dados pessoais, constavam participação em diversos eventos de hacking, incluindo algumas edições da DefCon, H2H e Roadsec. Léia não gostava de roupas sociais, as que normalmente mulheres usam quando trabalham para empresas que exigem este tipo de traje. Imagina a cara do(a) entrevistador(a) quando viu Léia trajando uma calça e bota no estilo militar, uma camiseta preta com os dizeres “Hack the Planet”, uma mochila nas costas (com tudo o que tinha) e um cabelo no estilo dreadlock?

Mesmo sob aquelas roupas (anormais para muitas pessoas que possuem o rei na barriga), existia uma Mulher com uma beleza encondida, alguém que só queria viver uma vida tranquila (hackear alguns sistemas), trabalhar e quem sabe conhecer alguém legal na cidade nova.

Após receber vários nãos e olhares de sua cabeça aos pés, Léia resolveu deixar de ser quem era, ser uma outra pessoa. Mudou o seu visual, começou a usar roupas normais, como camiseta, calça jeans, tênis e um cabelo liso. Em vez de ir atrás de vagas de emprego ofertas por grandes empresas, foi atrás das ofertadas por empresas pequenas, daquelas que você pode encontrar nas proximidades da rua 25 de Março em São Paulo.

Conseguiu emprego numa loja de reparos de computadores (daquelas que cobram 50 reais para formatar um PC…). Léia tentou prometer para si mesma que não arranjaria confusão. Mas a calmaria logo passou após algumas semanas.

Num belo dia, seu chefe, que atendia pelo nome de Joseph, pediu que instalasse o Windows 10 em seu laptop pessoal, pois precisava entregar para sua esposa. Disse que já estava formatado, que só precisava instalar o Windows, pois não teve tempo de terminar o serviço. Porque um homem formataria seu laptop que dará de presente à querida esposa? Rabo preso, medo de que seja pego com a boca na butija. Léia como é curiosa, resolver tirar a prova.

Utilizando o HirensBootCD, um Linux que possui várias ferramentas, incluindo as de recuperação de arquivos ou partições, Léia fez o boot no sistema e conseguiu recuperar os arquivos apagados pelo seu medroso dono. Nunca passou pela sua cabeça o que aquele chefe sem graça gostava de fazer quando ficava até mais tarde na empresa enquanto ela ia embora. Pornografia, fotos de mulheres nuas, e outras coisas mais populavam a pasta de arquivos recuperados que Léia havia criado anteriormente.

Enquanto revia o conteúdo das pastas, Léia percebeu que alguém estava atrás dela, provavelmente vendo a mesma coisa. Mesmo sabendo de quem se tratava, não se deu ao trabalho de virar e fazer cara de surpresa para a pessoa que agora está com cara de espantado.

O que está fazendo bisbilhotando minhas coisas? (Pergunta que todos os “injustiçados” fazem)

– Joseph, Joseph, eu poderia te ferrar sabia? Detesto trabalhar nessa porra, você me paga mal e nem me registrou.

Joseph a encurrala na parede e fala: – Quem você pensa que eu sou? Acha que tenho medo de você? Poderia fazer o que quisesse com você aqui e agora!

– Tire suas mãos de mim seu filho da p***! Tenho o backup dessas suas fotos, e se não se afastar agora de mim, amanhã elas estarão na web pra todo mundo ver!

Relutante e com uma ponta de medo, Joseph se afasta.

– Cai fora daqui agora!

Léia já do lado de fora da loja, respira fundo, observando as centenas de pessoas que passam pela rua. Olha no relógio e vê que são 12:20PM, resolve então ir para um lugar longe dali. Pega o metrô, faz algumas baldeações e desce em qualquer estação. Caminha sem rumo por alguns quarteirões, até que para em frente a um restaurante. Na frente tem um anúncio que diz: “Precisa-se de garçonete com experiência”. Eu consigo! – Pensa. Resolve entrar no restaurante, senta-se a uma mesa nos fundos e pede o prato do dia.

Enquanto come, Léia repensa em tudo o que aconteceu, nas diversas entrevistas em que fracassou, nas pequenas empresas que trabalhou mas que sempre arranja alguma confusão, culminando na última que trabalhou até o dia de hoje. Queria tanto voltar àquele tempo em que se sentia parte de algo, o ande ajudava às pessoas, revelando a verdade do que encontrava nos sistemas que conseguia entrar.

Leia pergunta a um cara, que julgando pelos trajes, parecia ser o dono do lugar: – Ainda estão precisando de uma garçonete com experiência? Não estou com meu currículo, mas posso lhe garantir que dou conta do recado.

Um senhor de uns 60 e poucos anos a mede das cabeças ao pés, resmunga algo inaudível e fala: – Atenda aquele rapaz da mesa 12! Ah, o seu almoço é por conta da casa!

Algumas semanas passam e Léia parece ter pego o gosto pelo novo trabalho. Se acostumou com a rotina de trabalho que começa sempre às 7 da manhã e termina às da noite. São doze horas de trabalho e um salário baixo, mas é o que ela tinha no momento. Com o passar dos dias Léia começou a se arrumar mais, pois não poderia ficar do jeito que estava, meio que querendo jogar a toalha. Em mais uma manhã ensolarada, vestindo seu usual uniforme preto e sapato da mesma cor, com salto nº 7, cabelos presos num estilo moderno, Léia dá os retoques na maquiagem antes de sair para o trabalho.

O dia passou como Leia esperava. Pedidos normais feitos por pessoas normais em um dia teoricamente normal para elas.

Seu expediente está quase chegando ao fim, e Léia nota que um cliente sentado no fundo da lanchonete ainda não fez seu pedido, pois está ocupado mexendo em seu laptop.

E chegamos ao momento em que Léia conhece Case.

#Despedida ?_

Após entregar o pedido de Case, Léia observa Case digitando freneticamente no laptop. Ela é desse mundo underground e sabe que alguma coisa o jovem rapaz está fazendo. Vendo isso, algo despertou em, um sentimento que estivera há muito tempo esperando para ser acordado. Um sentimento de realmente querer fazer parte de algo maior, e quem sabe aquela pessoa sentada ali poderia ajudar.

Case termina seu lanche e guarda o laptop na mochila, colocando-a em seguida nas costas. Se dirige até o caixa para pagar a conta. Quando Case para na porta, pronto para sair, toma um susto quando alguém toca seu braço. É Léia.

– Case, eu posso te ajudar no que está trabalhando. Sei que não está bem, pois sua cara demonstra isso.

– Não preciso de ajuda Léia, acho que neste momento ninguém pode me ajudar. Estou um pouco perdido, preciso reorganizar meus pensamentos.

Léia passa um pedaço de papel e caneta à Case e pede que escreva seu endereço de e-mail e também o usuário utilizado no Telegram. Mesmo sem entender, Case faz o que Léia pediu.

– Ainda vamos nos ver Case.

– Espero que sim moça. Até logo.

Case acena com um tchau e Léia faz o mesmo, e observa o jovem rapaz se distanciando cada vez mais na noite fria de São Paulo.

#Daqui para frente_

O que ela quis dizer quando disse que poderia me ajudar no que eu estava trabalhando? Não sei no que poderia me ajudar, mas bem, preciso pensar agora no que farei daqui pra frente.

Andando sem rumo, com as mãos nos bolsos da blusa e o capuz sobre a cabeça, Case entra em um boteco de esquina. As pessoas ali dentro estranham o jovem rapaz de capuz se dirigindo diretamente ao banheiro, localizado nos fundos, mas logo deixam de prestar atenção. No banheiro, Case se tranca em um compartimento livre. Lá dentro abre o seu smartphone, retira o chip da operadora e o joga no vaso sanitário, para em seguida vê-lo rodando rumo ao desconhecido…

Essa paranoia sempre esteve presente na vida de Case, mas às vezes deixava a desejar, e foi o que custou a sua situação atual, onde Cereal não teria acesso às suas conversas se fosse mais cuidadoso. Mas como ele imaginaria que isso fosse acontecer? A máscara sempre cai, e Case soube a tempo quem estava por de baixo dela.

Colocar outro chip simplesmente não resolverá as coisas. Por padrão, quando um chip novo é inserido e o aparelho ligado em seguida, ocorre uma comunicação com a operadora, que fará a devidas validações (checagem do IMEI e outras coisas), permitindo o acesso ou não à sua rede de dados e de telefonia (para fazer e receber ligações).

Algo a mais precisa ser feito.

Case sai do boteco e se dirige a um certo local dentro de um shopping ali perto. Em um canto escondido, onde geralmente ficam as lojas de manutenção de celulares, venda de capinhas e chaveiros, Case cumprimenta um antigo conhecido, o seu José, como é conhecido pelos mais chegados. José trabalhou há muito tempo com computadores, celulares, etc. Pode-se dizer que foi um hacker no passado, pois hoje está aposentado, mas quando necessário faz as suas brincadeiras.

E hoje é um desses dias. Nos fundos de sua pequena loja, José possui equipamentos que desempenham, digamos que “funções diferentes”. Obviamente não foram comprados naquela loja de eletrodomésticos, e sim em um site chinês (tudo poderia dar errado).

– Após alterarmos o IMEI de seu smartphone ficaremos no escuro, pois não temos como saber se o novo código será aceito pela operadora quando inserir outro chip no aparelho. – Fala José.

– É um risco a se correr. Tenho alguns chips aqui comigo que comprei outro dia de um ambulante próximo a uma estação de trem. Podemos testar. – Complementa Case.

IPHONE-IMEI

José insere o smartphone de Case no compartimento do milagroso hardware. Cerca de 30 minutos se passam, até que então o processo de alteração do IMEI é concluído. De posse de um chip, Case entrega-o à José, que insere a pequena peça no smartphone, ligando-o em seguida. José aguarda a inicialização do sistema operacional e percebe que um certo ícone aparece no topo da tela.

– O chip foi reconhecido? – Pergunta Case.

– Veja…

Case pega o smartphone e confirma que o chip foi reconhecido pela operadora, pois o aparelho está com acesso 4G à Internet e sinal de celular para receber/fazer ligações.

Me deve uma hein Case!

– Obrigado velho, não vou esquecer dessa!

Case se despede de José com um forte abraço e se dirige para a escada rolante mais próxima. Enquanto espera chegar até o final da escada, Case repara nas pessoas ali. Casais apaixonados, outros esperando na fila para pagar algo que consumiram ou algo que consumirão, vendedoras ávidas por novos clientes aguardam sorridentes em frente às lojas, crianças correndo em várias direções, ou seja, pessoas de alguma forma vivendo suas vidas normais. Case nunca achou que pertencesse a esse mundo de consumismo e de submissão ao sistema. Um sistema que faz que com sejamos reféns de algo criado com um único propósito: poder, o simples e puro poder em manipular as pessoas para que enriqueçam outras pessoas…

Mas ainda existem pessoas que pensam como Case, que não cedem ao sistema. Sistema este que em breve será comprometido, assim como uma rede que possui suas brechas e vulnerabilidades também ter a segurança comprometida.

Preciso encontrar Marcus e contar tudo o que descobri até agora, mas como? Se eu ligar para ele, poderei ser descoberto, pois o Cereal possui contatos em operadoras de celular que podem me rastrear facilmente. Vou até a casa dele, é um risco a se correr, mas tomarei cuidado.

Case caminha até a estação de metrô mais próxima, prestando atenção em qualquer coisa suspeita. Todos são suspeitos. A voz feminina do alto-falante anuncia que o próximo trem está chegando. Num sibilar as portas sem abrem. Várias pessoas saem apressadas, deixando o vagão vazio. Case se senta no assento mais próximo. Tira a mochila das costas e a coloca no colo, segurando com o bem mais preciso do mundo, pois neste momento é tudo que tem, então todo cuidado é pouco. Case fecha os olhos e tenta organizar as idéias, mas a primeira lembrança que vem a mente é a de Léia.

Algo nela me intriga, não consigo identificar. Como ela pode me ajudar? Esta garçonete é muito mais do que aparenta ser. Mas isso deve ser coisa da minha cabeça, pois estou cansado.

Imagens desconexas vêm à mente de Case, computadores, o fluxo de dados que segue incansavelmente ao seu destino, terminando em uma explosão de caracteres.

Como que por extinto, Case acorda ao ouvir a voz anunciando que estava chegando a estação em que desceria. Que visão louca. – Pensa.

A casa de Marcus fica a alguns quarteirões da estação de metrô. Já passa das 10 da noite, então Case não corre de topar com alguém no caminho.

#Recarregando as baterias_

Pulando de canal em canal, Marcus pressiona constantemente o botão do controle remoto da TV. Onde Case se meteu?

Alguém bate na porta uma sequência conhecida de toques. Não é possível…

– Eu sabia que era você seu doido! Porque sumiu?

– Eu precisava tomar um ar, sair do club um pouco, não estava aguentando. Fui a uma lanchonete perto de lá para descansar um pouco e tomar um café, mas fiquei de boca aberta quando descobri algo importante, que afeta a todos nós do club, você precisa saber!

– Fala logo meu pai!

Case conta tudo que D0ctor havia lhe contado, sobre a garçonete e o velho José.

– Isso tudo é muito estranho Case. Por que se dariam ao trabalho de criar essa operação, sendo que Cereal está do lado de uma das pessoas que estamos investigando?

Não é mais pela operação Marcus, agora é pessoal. Preciso ir até o fim!

– Ei cara, estamos juntos nessa!

– Desculpa mano, sei que está comigo, mas não temos força suficiente pra enfrentar tudo isso. Não sei o quanto as outras pessoas do club estão corrompidas. Não podemos correr o risco de falar com alguém de lá e nos ferrarmos ainda mais.

Essa garçonete hein? Ela deve estar super afim de você hein?

– Não acho que está Marcus. E mesmo que estivesse, não sei quando a verei novamente. É página virada meu amigo, temos outras coisas para nos preocuparmos.

– Falando nisso Case, conheço uns caras que podem nos ajudar. Não gostam muito da tecnologia de hoje, pois preferem fazer as coisas à moda antiga, se é que me entende.

– Claro Marcus. Falando em coisa antiga, tem aquele seu Atari ainda?? Você sabe que o Space Invaders me acalma!

Espere que vou pegá-lo!

Logo em seguida, vemos os dois rapazes se divertindo, dando gritos de alegria ao jogarem o game Space Invaders no antigo console. Mesmo sob a responsabilidade que recai sob seus ombros, Case e Marcus são pessoas que precisam se divertir, esquecer um pouco desses problemas. A vida desses jovens não será fácil daqui em diante. Eles não sabem neste momento qual será o próximo passo do inimigo, mas têm em seu sentimento algo que também aflora no coração de milhares de brasileiros: a liberdade!

Apesar de tudo que está acontecendo, ainda consigo ver uma luz no fim do túnel. Sei que ela está lá. Pode parecer utopia, mas as coisas ficarão bem. MAS, pessoas como Cereal e outros do club, incluindo os homens/mulheres do colarinho branco e todos os que compartilham da mesma idéia de controle sobre a massa, presenciarão a vitória de seu oponente (que este caso sou eu e outros milhares de Brasileiros).

Eu sou Case e não deixarei isso barato.

(Como falei na edição anterior, um livro será lançado, fruto das edições do Diário de um Hacker, com o nome de Guerra no Sistema. Para que você caro(a) leitor(a) se acostume com este novo nome, as próximas edições do Diário de um Hacker passarão a ser chamadas de Guerra no Sistema, blz? Hack the Planet!)

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